quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Olivença, agora Lupilichi!


Antigamente era a bandeira portuguesa que oudulava ao vento, agora é a de Moçambique, país livre que correu com os portugueses de lá para fora. Pelo aspecto dos abrigos onde habitam os moçambicanos livres, parece que não ficaram a lucrar grande coisa com a mudança.
Nunca fui a Olivença, mas, nos idos de 1964, caminhei duas noites e um dia para lá chegar. Guiado por alguém que não conhecia o caminho, um grupo de onze ou doze fuzileiros andou por montes e vales, à chuva e à fome e teve que regressar à base sem ter posto os olhos nesta terra perdida do norte do Niassa.
Distante da fronteira do então Tanganika uns míseros 25 Kms, sabe Deus por onde teremos andado nessa viagem. Talvez dentro do território do país vizinho, uma vez que o Rovuma ainda não é fronteira naquele lugar, ou nem se dá por ele. Hoje, isso já não interessa nada e não penso lá voltar, limito-me a recordar as peripécias do tempo em que por lá andei.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Pescador benfiquista!

Há 50 anos, o melhor que havia como barco de pesca no Lago Niassa era uma piroga escavada no tronco de uma árvore, como nós, os que por lá andámos de G3 em punho, tivemos oportunidade de ver. Hoje, já vai havendo outro tipo de barcos, como se pode ver na imagem, e com motores mais ou menos potentes para substituir as pangaias que nessa altura eram utilizadas para fazer mover a piroga.
E também há redes que eu já as tenho visto noutras imagens que circulam pela internet. Redes mais ou menos modernas e ajustadas ao tipo de pesca que ali é permitido. Verdade também é que já existe, em Metangula, um organismo do Estado que controla/fiscaliza essas coisas.
Quando estava em Metangula vi muitas vezes os pescadores mergulharem com uma espécie de lençol branco, cada um deles segurando uma ponta do dito, e alguns segundos passados emergirem com meia dúzia de peixitos dentro dele. Aquilo é que era a verdadeira pesca artesanal.
Mas aquilo que me fez trazer aqui esta foto foi a cor com que o pescador pintou o seu barco, encarnado que é a cor do meu Glorioso Benfica Campeão!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Parceiros no Niassa!

Se havia um maluco (mais maluco que eu) pelo Niassa, era o Valdemar Marinheiro, mas esse, infelizmente, já cá não está para dar o seu contributo nesta luta pelo sucesso. Pelos mortos temos o respeito que eles merecem e a admiração pelo que fizeram em vida e sentimos saudades deles, como eu sinto do Valdemar.


Mas, hoje, é de outro parceiro que quero falar ou, melhor dizendo, prestar-lhe um tributo muito especial por nunca me ter abandonado, desde que nos conhecemos, refiro-me ao Eduardo Maria Nunes. Ele reúne mais de 50% dos comentários feitos em todos os meus blogs e não sei se eu ainda por aqui andaria se não fosse por ele a injectar-me a energia que por vezes me falta.
E falando do Niassa, porque é disso que se trata, ele chegou lá primeiro, no ano de 1963, se não estou enganado, incorporado no «Batalhão de Caçadores Nº 598» que se radicou em Vila Cabral. Eu só lá chegaria um ano depois, em Setembro de 1964, quando os frelimistas começaram aos tiros. Antes de mim, ele calcorreou aquelas picadas, desde Vila Cabral até Metangula, passando por Maniamba, Nova Coimbra, Lunho e Cobué, lugares lindos de ser ver se não fosse pela guerra.


Casualmente, fui destacado para passar uma semana com o Exército, para desenvolvermos uma operação em conjunto, na zona a norte do Cobué, no último trimestre de 1964. Montamos a nossa tenda junto das tendas dos camaradas do exército, tomámos as refeições em conjunto e nunca saberei se estive sentado, lado a lado, com o Eduardo saboreando uma marmita cheia de feijão frade com sardinhas de conserva. Na Marinha nunca me calhou tal petisco, ele talvez não tenha essa "petisqueira" guardada num cantinho da sua memória, pois pelo que se falava, tal ementa era repetida com alguma frequência.
Em Janeiro de 1965, depois de ter dado por lá uns tirinhos regressei a Lisboa sem intenções de voltar a Moçambique. Entretanto o Eduardo por lá continuou, durante mais alguns meses, a amargar as agruras da guerra, a qual transformou aquele canto do mundo num autêntico inferno. Principalmente por causa das minas que a Frelimo espalhava a esmo em tudo que era picada. Se as tivessem que pagar não seriam tão pródigos, mas como eram oferecidas pelos comunas de Moscovo e Pequim, toca a aviar. Toda aquela zona entre Maniamba e o Cobué, com o Lunho no meio, era um verdadeiro inferno por causa delas. Daí lhe ficou o nome de «Estado de Minas Gerais», bem conhecido por todos os combatentes que por lá passaram.
E quando o Eduardo dava por terminada a sua guerra e regressava a Lisboa, inscrevi-me eu na Companhia de Fuzileiros Nº 8 para regressar a terras moçambicanas. Cheguei lá nos fins do ano de 1965 e passei na capital da província quase todo o ano de 1966. O resto da comissão foi passado no Niassa e voltei a calcorrear as picadas por onde o Eduardo e eu já tínhamos andado três anos anos. Um acaso da vida levou-me ao Quartel do Exército de Vila Cabral, em meados de 1967 e tirei lá uma fotografia que aqui vos vou mostrar para provar o que digo.


Por causa das minas de que atrás falei, a Parada do Quartel era um autêntico cemitério de viaturas acidentadas. Quem ocupava o quartel, nessa altura, era o Batalhão de Caçadores Nº 1891, talvez o que mais publicações tem na internet. Nessa altura já o Eduardo tinha feito o espólio no Exército e cuidava doutra vida.


E termino com uma última notícia, para vos contar que o Eduardo já é reconhecido "na rede" como uma pessoa importante e com direito a perfil público. Diz ali em cima que isto só pode ser visto por mim, mas ele não se vai chatear comigo por eu partilhar o segredo convosco.
Toma e embrulha!!!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A coisa vai ... devagar!

As notícias saem a conta-gotas e as obras ainda mais devagar. Eu entendo o porquê de isso acontecer assim, é a falta de recursos financeiros. E eu que tanto gostava de ver Moçambique a andar para a frente!


O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) confirma a disponibilidade de trezentos milhões de dólares americanos para financiar a asfaltagem dos cerca de 306 quilómetros da estrada Cuamba/Lichinga, que integra o Corredor de Desenvolvimento do Norte.
Segundo João Mabombo, oficial sénior do BAD, as obras naquela rodovia estão divididas em duas fases, a primeira das quais já está em curso, envolvendo o troço Malema/Cuamba. Nos próximos dias, segundo a fonte, deverá ser lançada a primeira pedra para a segunda fase do projecto, contemplando o troço Cuamba/Massangulo/Lichinga.
“Nas próximas duas semanas serão conhecidas as empresas ou a empresa responsável pela execução das obras nos troços Cuamba/Muita, Muita/Massangulo e Massangulo/Lichinga”, explica João Mabombo que falava há dias no Niassa, por ocasião da reinauguração da linha férrea Cuamba/Lichinga.
In Jornal de Notícias

domingo, 6 de novembro de 2016

De 1969 até aos dias de hoje!

Os combatentes da Guerra Colonial conhecem bem os nomes das povoações mencionadas abaixo, pois por ali viveram as «passas do Algarve», enquanto a guerra durou. Primeiramente sem o comboio e depois com ele a ajudar nas deslocações.
Eram despejados, aos milhares, em Nacala e apanhavam depois o comboio que os levava para o interior norte, de onde muitos regressaram estropiados e muitos outros por lá ficaram para sempre. Eu sou um daqueles que seguiu esse caminho e voltou são e salvo.
A reabertura desta linha também nos diz respeito, pois ajudamos na sua construção, assistimos à sua destruição e temos o direito de festejar, agora, o seu regresso à actividade. Desejo, sinceramente, que ela ajude os moçambicanos a ter uma vida melhor, em tempos de paz, como nos ajudou a nós, nos tempos da guerra.


«O Presidente da República procedeu à inauguração, esta quinta-feira, da estação de Lichinga, um acto que marca o fim da reabilitação total da linha-férrea que liga o distrito de Cuamba à capital provincial, numa extensão de 272 quilómetros.
A cerimónia arrancou com uma viajem experimental de 14 quilómetros, de Lichinga ao distrito de Chimbonila. Durante o troço, várias pessoas saudaram a comitiva do Presidente da República e demais pessoas que eram transportadas no comboio.
“O comboio apitou e está a ser ouvido em Mavago, Mandimba, Lago, Ngauma, Sanga, Membe, Mecula, Marrupa, Maúa e todos outros distritos da província. É com imensa emoção e satisfação que me associo à reinauguração da linha de Lichinga, a linha que percorri a cada quilómetro”, afirmou Filipe Nyusi.»

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O «Comboio do Catur»!


No longínquo ano de 1969 (já eu estava fora da marinha, era casado e pai de filhos) era, orgulhosamente, inaugurado o troço do caminho de ferro que ligava o Catur a Vila Cabral. Durante os 5 anos seguintes, milhares de combatentes portugueses fizeram essa famosa viagem, entre Nacala e Vila Cabral, em muito melhores condições do que eu, quando me calhou a vez, no último trimestre de 1966, pois tive que fazer o troço final (mais de 200 Kms) em cima de uma Berliet do Exército e por uma estrada que era pouco mais que um carreiro de cabras.
Depois veio a independência, a guerra de libertação transformou-se em guerra civil, entre comunistas e os seus opositores, e viveram-se anos muito maus. como seria de esperar num país sem rei nem roque. Tudo era roubado e/ou destruído para alimentar essa guerra que, embora em termos menos agrestes, continua até aos dias de hoje. A novíssima linha de caminho de ferro, de Nova Freixo (agora chamada Cuamba) até Vila Cabral (hoje Lichinga) também não escapou a essa voragem.
Os bandidos armados, assim eram chamados todos aqueles que lutavam contra o instituído governo marxista-leninista, assaltavam os comboios e pilhavam tudo aquilo que lhes fazia falta para continuar a sua luta. Em função disso começaram a rarear os passageiros e dentro de pouco tempo o tão famoso «Comboio do Catur» desaparecia de circulação.
Passaram, entretanto, mais de 40 anos e as vias de comunicação, em todo o distrito do Niassa, com algumas raras excepções, pioraram se comparadas com aquilo que foi deixado da era colonial. O Caminho de Ferro foi aquele que mais sofreu, tendo quase desaparecido da vida das pessoas. Qualquer niassensse com menos de 40 anos que não seja viajado, nunca viu um comboio a não ser em videos que os smartphones, espalhados pelos quatro cantos de Moçambique, levam até eles.


Neste ano da graça de 2016, a história vai dar um gigantesco passo atrás e devolver o comboio àquela gente que bem precisa dele. Cerca de 340 Kms de carris novos ou rectificados pela Mota-Engil, empresa de construçõea portuguesa, foram colocados entre Nova Freixo/Cuamba e Vila Cabral/Lichinga e será uma questão de dias até se ouvir o comboio apitar de novo na capital do Niassa.

sábado, 22 de outubro de 2016

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Bela Nyanja!

Encontrei esta foto por aí, a vogar na internet, dizendo tratar-se de uma mulher Nyanja. Não sei se é verdade ou mentira, o que sei é que se trata de uma bela mulher e, por conseguinte, digna de figurar neste blog que só trata de coisas bonitas.
Este fim de semana realizou-se um festival de música e dança na Messumba (ou Chuanga?) e aguardo que os meus amigos do Facebook publiquem algumas fotos que valha a pena publicar aqui, mas enquanto isso não acontece vamos-nos contentando com este pedaço de verdadeira beleza africana.

domingo, 11 de setembro de 2016

Rebobinar o filme da nossa memória!

A cada passo, dou uma vista de olhos pelas fotos que aparecem na net relacionadas com o Niassa, em geral, e Metangula, em particular. Há muitas fotos antigas, do tempo da guerra colonial, mas na sua maioria representam caras que me são totalmente desconhecidas, ou lugares por onde nunca passei e por isso sem significado para mim. E tenho a impressão que deve haver algum imbróglio entre a Google e o Facebook, pois há muitas fotos neste que não são localizadas pelo motor de pesquisas da Google. Ao contrário, tudo aquilo que se carrega através do Blogger vai lá direitinho.
Na minha última pesquisa, encontrei esta foto de uma das lanchas da Marinha de Guerra Portuguesa em serviço no Lago Niassa, entre 1966 e 1975 (datas aproximadas). Quem a publicou deu o nome de «Castor» à lancha, mas eu tenho quase a certeza que se trata da Regulus e não da Castor. Naveguei a bordo de ambas e sei que eram bastante diferentes, desde o casco, o tamanho, as superestruturas, etc..


Encontrei também esta outra fotografia que retrata o «Bar do Neves», sítio onde depositávamos religiosamente as nossas economias como se de um banco se tratasse. Lembro-me como se fosse hoje que ali apanhei a maior torcida da minha vida Éramos seis camaradas da CF8 e, depois de ter emborcado umas quantas bazucas, ao jantar, despejamos sete (7) garrafas de Johnny Walker para acompanhar o cafezinho que tomámos depois. Na manhã seguinte, acordei na minha cama, mas como fui lá parar não faço a menor ideia.


Antes de construirem esta casa, o casal Neves e Maria (ama dos filhos do comandante da base) vivia dentro da Base, no edifício mais a norte que era reservado aos sargentos. Por trás desse edifício tinham o galinheiro, de onde foi surripiado o galo que serviu de jantar e antecedeu o mar de whisky em que o fizemos nadar depois.
Coisas da juventude que não esquecem e faz bem recordar.